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    quinta-feira, 16 de agosto de 2018

    O analfabeto político moderno


    * Maria Marleide da Cunha Matias

    Em um tempo anterior as profundas transformações sociais, econômicas, culturais e tecnológicas das quais somos produtos hoje, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht escreveu em um célebre texto que o pior analfabeto é o analfabeto político. Para Brecht, o analfabeto político “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos ... é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política”. Hoje o mundo mudou e com ele o analfabeto político mudou sua forma de se apresentar na sociedade, restando apenas de comum com a formulação Brechtiana, o ódio a política que atualmente é alimentado pela propaganda publicitária da antipolítica.
    Ao contrário dos tempos de Brecht, o analfabeto político moderno participa dos acontecimentos políticos, se reúne em coletivos, fala em redes sociais, repete verdades prontas como se não existisse outro ponto de vista e compartilha discursos preconceituosos e mentirosos sem a menor reflexão crítica, ao mesmo tempo em que apoia regras de proibição de discussão política em grupos de Whatzapp. Ele é insensível a dor do outro e não pensa nas causas e consequências dos seus atos. É uma pessoa carente de pensamento crítico que sofre um processo de de-formação do pensamento.
    O analfabeto político moderno é produzido e manipulado pela indústria cultural da antipolítica (Tiburi, 2016), que pela propaganda publicitária de esvaziamento da ação política produz uma política despolitizada, que nada mais é do que a introjeção de uma nova política.
    A propaganda antipolítica que ridiculariza a política e leva o povo a rejeitá-la, difunde discursos e práticas que atuam no sentido de construir a ideia de deterioração e deturpação do sentido da política, com o objetivo de nos afastar dela e pensar que a sociedade sem política é melhor. Ao mesmo tempo vemos pessoas e grupos antipolíticos que se candidatam, fazem o discurso da negação da política, disputam o voto do povo, se elegem, ocupam espaço de representação política e ainda dizem não serem políticos. E o povo que acredita nesse jogo cínico é feito de imbecil pelo “pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das em presas nacionais e multinacionais”, retomando a formulação de Brecht.
    Diante dos acontecimentos atuais de ridicularização e descrédito da política e dos políticos é importante refletir: De que nos serve a rejeição e negação da política? A quem interessa abandonar a política? Quem ganha e quem perde com isso?
    O ser humano é um “animal político”, para citar a expressão de Aristóteles. Não somos como as formigas ou abelhas que tem sua função social transmitida pelo código genético, somos seres políticos que dialogamos, negociamos e criamos laços comuns para boa convivência em sociedade e isso requer a defesa de direitos para todos e respeito por cada um. Para a filósofa Marcia Tiburi (2018), “ é impossível não fazer política se todos os nossos atos humanos, apenas são humanos porque são políticos. Fazemos política consciente ou inconscientemente, o tempo todo, por ação ou omissão”. A destruição desse ser político sujeito de direitos é produzida pela antipolítica que promove a interrupção da capacidade de pensar, de refletir e de discernir sobre o bem comum. E é nessa interrupção do pensamento crítico que cresce o analfabeto político moderno, como um boneco ventríloquo do antipolítico. É urgente desenvolver processos de alfabetização política se quisermos sonhar com a ruptura dos jogos de opressão, dominação e exploração. Mais do que nunca precisamos de homens e mulheres alfabetizados politicamente.

    Referências Bibliográficas
    TIBURI, Marcia. Como conversar com um fascista. 8º ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.
    __________. Ridículo Político: uma investigação sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto. 4º ed. Rio de Janeiro: Record, 2018.
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    * Mestra em Educação e presidenta do Sindiserpum.

    Publicado em 16 de agosto de 2018. © Assessoria de Comunicação Sindiserpum.


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